Poemas de Luta
OBRA POÉTICA  

...E ENTÃO ESCREVI
debrucei-me
no gesto dessa rua
       segui
rútilas ondas ao sol-posto
       vivi
olhos molhados raiva e lua
       fui
manhã de Janeiro
tarde de Agosto
       amei
frases riscadas na parede
embarcadoiros de pedra e tristeza
       beijei
esmola pela boca dos mendigos
       chorei
justiça em olhos de mulher
       senti
pranto – amores – esperança – postigos
o passo certo ao passo qualquer
       um dia
busquei o perguntar
       e nada vi
encontrei-lhes livros expurgados
       de ideais

peguei numa caneta…
…e então escrevi.


SER
os homens são quem são
              somos quem fomos
              e seremos ou não
     somos
              do imenso palco
              as personagens
     somos
              dos livros-brancos
              as mensagens
     somos
              as notas graves
              de músicas perdidas
     somos
              palhaços
              das lojas dos brinquedos
     somos
              da noite
              os nossos próprios medos
     somos
              escultores
              das nossas próprias vidas.

DESEJO AO POEMA
Queria

Que os meus poemas fossem pedras
Que à noite,
Tradição arremessasse!

Queria

Que cada pedra fosse uma canção
Que o povo cantasse!

Queria

Que os meus poemas fossem gritos
Capazes de romperem alvoradas
Que não fossem só letras
Ou só escritos
Mas tivessem a marca das enxadas!

Queria

Que os meus poemas fossem pão
Não palavras de sonho e ansiedade
Mas que tivessem o condão
De alimentar a alma da cidade


COMPRA-ME SONHOS
compra-me sonhos
eu dar-te-ei verdades
que precisas de saber
eu preciso de sonhos
para tornar a entender
o perfume da flor
o sabor da maçã
a frescura da aragem
a quentura da lã
o banco do jardim
o riso da criança
o pipilar da ave
a doçura da esperança

em troca dar-te-ei
uma mulher sem um abraço
um homem sem trabalho
um foguetão no espaço
uma barraca de lata
um cego a uma esquina
uma prostituta menina

depois se a sorte
não soubermos mudar
que sejamos malditos
por ficar
braços caídos
sem lutar.

DEFINIÇÃO DE UMA PLÁSTICA
A minha poesia é pedra dura
       Basalto que rolou pelos fraguedos

Tem por vezes a algidez da planura
Outras vezes a quentura dos vinhedos

E o pensamento é terra

       Que rescende
       ao húmus que fermenta
              a folha morta
       erótico perfume
              a laranjais
       simplicidade adusta
              duma horta

o meu sonho é um cavalo
       sem ter frio
       meu suporte e razão
       de asas aladas
       que me leva pairando
              nas alturas
       a quanto sinto
              a pequenez das estradas

embebo de uma cor avermelhada
       o traço com que firo as minhas telas

eu não canto as belezas
       dum sol posto
       nem minto
       p`ra que as coisas sejam belas.


OS DESENHOS
O desenho fere e dói
É alegria mas rói
Na coragem da verdade
Libertação dos sentidos
Libertação dos vestidos
E libertação de sol
Corpo e sonho
Flor e lança
O fiel duma balança
Assente entre dois balões
Um segredo murmurado
Aquele conto sempre esperado
Nos sonhos duma criança.


TEOREMA
para escrever um poema
       hino à liberdade
é necessário que os poetas
       cantem as prisões.