|
QUANDO MORRE UM POETA (A DANIEL FILIPE) quando morre um poeta a noite torna-se mais escura as aves calam-se os arroios secam as árvores tombam as crianças perdem o sorriso os velhos sentem mais frio e os homens sofrem sem saber porquê a noite torna-se mais escura quando morre um poeta mas o céu e a ave a árvore e o arroio sabem porquê. PARA O JOSÉ DUARTE... ontem à tarde serviram-nos jazz Free Em cadeira estofada e com plateia [aquecida Isso fez-me lembrar aquele verão Em que escorríamos liberais sangrias Onde porções por instinto Tinham caminhado mãos dadas no [jarro embaciado. Jarro Jazz Frio Free Jarro-Jazz-Frio-Free. FREEEEEEEEEEE……. - LIBERDADE……. Este poema É para TI! |
SILÊNCIO SOBRE FERNANDO MADUREIRA Agora venho de outros lugares e trago coisas, novas mensagens que aprendi pelos lugares onde fui só conheço as multidões estive com ela com elas desfilei hinos bandeiras e gestos no repetir refrões que a razão me enjeitou de gritada à surdez dos homens agora conheço coisas de pasmar tais como um e um serem dois e haver dia e noite pensamento que não hora pois não se pode cronometrar nem garantir a existência do amanhã digo multidões com o gosto amargo da máquina a vapor que arrasta carruagens pelos túneis de um deus onde me perco e as palavras trocam de boca a clamarem a claridade dos processos no entanto sei que corri primaveras uma flor nos lábios rocio de olhos aquando a rua dizia poemas e os soldados eram profetas Éramos um imenso exército livre e sem proscritos ou peticionários rendidas que foram as companhias disciplinares e presos todos os polícias sei isto tudo porque venho de lá do outro lado onde fui tabuleiro de relva e joguei vontades ao berlinde eram belos os corpos e os sorrisos pois a juventude apossava-se dos velhos calado que foi a saudade mais tarde refloriam cardos e as urzes teceram enredos onde as crianças picaram os dedos digo-vos que Caxias voltou a ter grades e Custóias o terreiro dos gritos Lembro-me da voz do poeta dependurado da trave da cozinha pois fora ele escrevera: -Porra um homem foi fuzilado e nós ficamos na mesma mais vinho para esta mesa então pintei uma tela nem branca nem negra apenas cor de café com leite com que nas pastelarias se acompanham os croissants. |
AS COLAGENS N`elas Recortados, colados, estendidos Esfaimados e adormecidos Estão arautos despertados De ânsia de ideal, de ânsia dos sentidos N`elas Estão pedaços-de-Paula Lançados sobre as telas POEMA A STUART CARVALHAIS Vagina dum país expulsando barcas pernas de pedra abertas devassa e devassada ventre moldado pelas mãos dum marinheiro minha Lisboa noite e madrugada minha Lisboa amante de estrangeiros nostalgia do que foi que já não é amante possuída em vão de escada varina sobre o cais batendo o pé vestes de sol e azul teu corpo de onda do salgado do mar espalhas o odor e arrastas-nos a todos no teu cio, Lisboa, minha puta meu amor. POEMA PARA ALVES REDOL fragata de vela branca cinza parda alaranjada ventre de vinho e azeite cortiça ou pedra britada cigana bailando-tejo gaivota da madrugada irmã das barcas do douto gémeas paridas no norte asilos dos da pouca sorte de quem o rio é a estrada. ausência de cama quente Tempo relógio do vento lodo – encalhe medo às cheias Casa longe magras ceias pés na lama saltitando se topam terra – bailando. teu rumo é dado por estrelas o luar é teu farol… que o mar seja teu sepulcro que a terra te seja leve… fragata de Alves Redol. |