Vítor Serrão
NOTAS CRÍTICAS  

O MARAVILHOSO MUNDO DO DESENHO EM MOITA MACEDO:

Notas para o reconhecimento do processo criativo de um Grande Artista

A publicação do álbum de Desenhos seriados de Moita Macedo, organizado por Fernando António Baptista Pereira, constitui não só a base que faltava para a compreensão dos processos criativos desse pintor-poeta ainda mal estudado, mas também um eficaz testemunho de revalorização da arte do Desenho como fonte de informação insubstituível no terreno da História da Arte científica.

O artista é um dos nomes injustamente nebulosos no panorama da arte portuguesa novecentista. De facto, José Albano Pontes Santos Moita Morais Macedo (1930-1983), o pintor Moita Macedo, apesar da sua altíssima qualidade plástica, é ainda hoje uma personalidade mal conhecida da História da Arte. Talvez por causa da sua formação autodidacta, ou talvez ainda pelo facto de a sua obra ser numerosa e se expressar em várias linhas temáticas e em diversos materiais e distintas técnicas e suportes, a verdade é que só após a sua morte prematura o fascínio pelas qualidades deste pintor-poeta se manifestou de modo mais consistente nos meios ligados à crítica da produção artística.

O caso exemplar deste livro de Fernando António Baptista Pereira, onde pela primeira vez o olhar do historiador de arte interroga segundo uma metodologia organizada as potências criadoras do artista, seguindo em paralelo o seu percurso verbal e gráfico, que é de resto indissociável para a compreensão do seu legado artístico (lembrando-se que, como o próprio Moita Macedo afirmou num poema, «pintei versos, escrevi quadros»), revaloriza o desenho para compreender os caminhos da pintura.

Os desenhos a carvão, grafite, tinta da china, a pastel ou óleo, sobre cartão ou papel, são assaz numerosos, por vezes breves esboços interrompidos, e atestam essa busca frenética de uma ordem pessoal de ver o mundo.

Este «pintor de natureza surpreendentemente rica», como o definiu Urbano Tavares Rodrigues, foi, entre outras coisas, poeta, escritor, militante de causas cívicas, resistente à ditadura, viajeiro por terras da Índia tântrica e budista, escultor, autor de capas de livros, conferencista e animador dos círculos culturais da Siderurgia Nacional. Artista ideologicamente comprometido, inconformado e rebelde, estava apto a agir nos seus quadros, no seu desenho e nos seus escritos como se eles fossem «cáusticas condenações do egoísmo triunfante», conforme escreveu o autor citado. Macedo escolheu a via do informalismo expressionista, através da qual melhor soube explorar, em modos muito pessoais (com sábia acentuação do relevo pictural como aqui bem observa Baptista Pereira), esse encantamento pelos caminhos de uma pintura dilacerante, marcada pela distorção das formas, pela devoção pelos nocturnos, pelas convulsões do traço e da matéria, num diálogo libertário entre o onirismo e a realidade.

Tem-se afirmado que a sua arte oscila entre um informalismo de base, devidamente assumido e consciencializado, e a tradição dos novos selvagens, em traços onde o neo-expressionismo abstracto e o gestualismo constroem as experiências e as possibilidades do artista. Esta auto-definição de tendências teve uma causa: depois de ser incentivado no seio do ambiente artístico da Cooperativa Gravura, onde conheceu o seu amigo Almada-Negreiros, teve de seguida o conhecimento directo da obra de Artur Bual, artista que lhe marcaria graus de exigência e estímulo para linhas criadoras em novas dimensões de nostalgia, fulgor, desencanto e esperança... Essas linhas a que o pintor se vai manter fiel ao longo de duas décadas de incessante produção foram entendidas pelo arqueólogo Cláudio Torres ao escrever, muito oportunamente, que existe em Moita Macedo «uma ideia subterrânea, nunca aprisionada na expressão fugaz de um aparente abstraccionismo, que brota, alucinante e irreprimível, na sugestão nocturna de um corpo feminino, nos panejamentos do velame ou ossatura de uma barca moribunda, na respiração dolorosa de um deus esquecido ou no frio horizonte de um entardecer»...

A personalidade de Moita Macedo continua, todavia, obscurecida por falta de um geral reconhecimento que se impõe, como se o seu sinuoso itinerário criativo, por ser essencialmente complexo e heterogéneo, apenas permitisse ténues impressões generalistas e dificultasse as abordagens críticas de conjunto. Além de artigos esparsos a seu respeito, como o que lhe dedicou o pintor Eurico Gonçalves (1996) e que é especialmente importante para o entendimento do pintor-poeta, ao elogiar com acerto a «ousadia de uma técnica irregular, espontânea e insubmissa», apenas existe uma valiosa monografia do artista, da autoria da historiadora de arte Alice Tomás Branco (edição Caleidoscópio, 2003), que fixa o essencial da obra, nas diversas técnicas, suportes e variações temáticas, e da fortuna crítica. Faltava, todavia, um «corpus» seriado das centenas de óptimos desenhos que Macedo nos legou, esses «fundos de gaveta», ou «armários cheios», desorganizados e sem ordem, que se impunha analisar a partir da definição dos seus tanto quanto possível lógicos fios condutores. Desta tarefa difícil se incumbiu, com rigorosa probidade científica e dotes de sensibilidade arguta na observação e escolha das peças, o historiador de arte e professor universitário Fernando António Baptista Pereira, e constitui a essência deste belíssimo livro, que explica a essência do informalismo gestual de Moita Macedo.

Os desenhos – base para o entendimento do mundo de sonhos e agitações criativas do pintor, mas também, em si mesmo, verdadeiros desenhos-pinturas, dado o recurso frenético à cor que é recorrente nestes trabalhos, e face às fronteiras ténues que no caso possam traçar-se entre pintura e desenho... foram devidamente agrupados por Fernando António Baptista Pereira em quatro grandes categorias temáticas, a que chamou: o grupo Desejos, Rostos e Nus, onde o onirismo buliçoso e para-erótico seduz pela diversidade de conceitos lineares e as buscas obsessivas em variações sobre um mesmo tema, o grupo Os Outros Eus, deriva na obra do artista por outros temas, como o da Tauromaquia, registo das suas origens ribatejanas, mas também pelos Cristos martirizados, onde o sopro de Bual se expressa, o grupo Presença do Mundo e dos Homens, onde as visões de cidades utópicas, os agrupamentos de figuras e as cenas de trabalho se multiplicam, e, finalmente, o grupo Evasão e Utopia, acaso o mais interessante, através do qual melhor se entendem as obsessões do pintor pelas manchas complexas e pela gestualidade de um informalismo muito pessoal.

Tem-se destacado justamente no artista a touche vigorosa de um gestualismo que se exprime através do claro-escuro e do barroquismo de manchas de um Hartung, por exemplo, e é precisamente pelo estudo dos desenhos, como o fez solidamente Fernando António Baptista Pereira, que este livro agora proporciona, que melhor se vai poder entender essa expressão plástica de Moita Macedo.

Vítor Serrão
Historiador de Arte, Catedrático da Faculdade de Letras de Lisboa