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MOITA MACEDO - O PRAZER DA GESTUALIDADE Não tendo conhecido pessoalmente o autor das obras desta exposição, mas lendo atentamente os testemunhos dos que sobre ele escreveram, constato que a obra pertence a um artista cuja personalidade foi de grande abertura e capacidade de simpatia, alguém que celebrava a vida nas mínimas coisas que fazia. Olhando a pintura de Moita Macedo, não pude deixar de me interrogar sobre o seu contacto com a obra plástica de Henri Michaux, artista que em 1973 expôs nesta mesma galeria, momento de grande impacto no meio lisboeta de então. Absorvidas e assimiladas estavam as experiências dos vários abstraccionismos, lírico e geométrico, como então se dizia, na linguagem crítica europeia. Moita Macedo é um pintor cuja obra revela uma consciência gestual, bem como uma voluntária exploração matérica, em que valores não figurativos prevalecem sobre as abstracções de figuras, como podemos ver em algumas tauromaquias ou marinhas. Para além de Michaux creio dever falar-se na indelével marca das tauromaquias de Júlio Pomar, que certamente o artista conheceu. É na exploração da mancha matérica que Moita Macedo se aplica, na cor sobreposta que raspa com um objecto acutilante ,é uma exploração típica dos Expressionismos -abstractos e não só - a de um deliberado anti esteticismo, da expressão do instante, da espontaneidade. Verificamos nas obras de Moita Macedo como se produz uma voluntária sobreposição de gestos, como se o artista se compraz no riscar as camadas de tinta que vai sobrepondo, nessa aproximação a uma gestualidade primitiva, quase da garatuja, em que adivinhamos um prazer quase iconoclástico, como a negar uma escrita anterior, refazendo sem cessar a sua inscrição dinâmica na tela. Não existem preocupações de elegância formal, a procura do artista consiste fundamentalmente em fixar nas obras a energia do seu gesto. Também as harmonias cromáticas que o pintor utiliza são de modo a combater um esteticismo que a muitos outros pintores foi caro, as suas cores são ásperas, combatem a elegância que fez moda decorativa em muitos pintores prontos a serem consumidos por um gosto que procura nas obras de arte uma mera função decorativa. É gratificante verificar que Moita Macedo, que não era um virtuosista, vai ao longo da sua obra manifestando uma atitude sempre experimental; as suas obras revelam a procura incessante de uma imagem o mais perto possível do inconsciente. Colares, Outubro de 2003 Prof. Dra. Sílvia Chicó |