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MOITA MACEDO OU O AMOR DA LIBERDADE Quem é este Pintor? Moita Macedo é um Pintor, um homem num desencontro encantado com a vida que teimosamente a cumpre invadindo vários campos num anseio de complementaridade, para “intervir”, para “dizer” e disse-o, de facto, de muitas maneiras o quão desacertado o mundo vai. É nesta vontade de acerto que este autor se encontra como que no centro dum caos que quer organizar, a que quer sobretudo dar um sentido. Diz Moita Macedo num dos seus textos que a sua pintura se poderia designar como memografia, isto é, uma grafia da memória, afirmação que se enquadra no “informalismo” como prática de pintura e que será a ponte mais continuada e expressiva do seu trabalho. Grafia com memória do passado acontecido mas que se mistura com o acto de realizar. Pintar num sentido duma expressividade quase automática, como que a deixar fluir vontades e desejos num jogo de formas e cores que a razão vai descobrindo e dando ordem. Há nas pinturas muitas vezes aproximações a figuração que se tortura na deformação que o desejo de lhes dar, acrescentar sentido, torna dramáticas ou poeticamente leves. O registo, a marca que deixa em qualquer dos casos, seja mais figurativo ou mais abstracto, digamos que ao longo da sua variada obra, há um sentido informal que exige o compromisso do espectador, dá e pede, exige a atenção, preenche o sentido do presente e um olhar retrospectivo. Memografia como termo síntese e aglutinador da sua proposta plástica é para além da vontade do autor, uma palavra feliz e esclarecedora. Moita Macedo nasce em Benfica do Ribatejo em 1930 e morre em Lisboa em 1983. Anos de vida, num enquadramento histórico, que são devastados por interesses profundamente divergentes, por lutas que se viveram como decisivas, como que transbordando os limites do homem, quer na c onstrução do ódio, quer em contrapartida um tempo exemplar de resistência e de generosidade. Esta profunda bipolarização marcará com violência as gerações envolvidas. Moita Macedo receberá na primeira juventude o exemplo e sobretudo o convívio do avô José, médico Republicano e deputado à Assembleia Constituinte. Nestes recuados anos um médico na província envolvido politicamente na República, era certamente um exemplo de implicação social e profissional na construção dum outro futuro. Grandes e generosos corações teve a Primeira República. Fosse qual fosse o grau dessa certamente benéfica influência, o facto é que a vida de Moita Macedo, será um acto contínuo de coragem, fortemente vivido, incansável e inquieto na procura de “encontros”, talvez da explicação da vida a acontecer-lhe. Casa ao atingir a maioridade (aos 2 1 anos) e terá cinco filhos. Parte em serviço militar para a Índia portuguesa (de 1954 a 1957). Estes anos longe do seu meio, noutra cultura, implicam-lhe a sua descoberta e trabalha com materiais locais. Houve, pelo trabalho conhecido, uma curiosidade e inquietação que lhe marcava o desejo do conhecimento que desde logo acentuam o desejo de intervir e de experimentação que definem uma forma de estar activa e participante sejam quais forem as consequências. Um segundo passo, a Siderurgia Nacional, que irá preencher em termos de emprego o resto do seu tempo. Na continuidade da estadia na Índia, em Portugal actua como pintor, escultor, animador cultural, poeta, como homem companheiro e empenhado. Aprofunda a sua actividade artística, pratica a gravura, envolve-se no meio artístico, conhece entre muitos Almada e Bual (1965) de quem será amigo, escreve textos para catálogos, participa na direcção de galerias e continuadamente activo na sua pintura e na sua poesia. Que é um Pintor? Sem romantismo, sem o sentimento de génio incompreendido, é no caso de Moita Macedo, a partir da Siderugia Nacional, que este pintor desenvolve no tempo que inventa e na força interior que o protege, a obra que na quietude e no desespero vai construindo por pura necessidade de sobrevivência intelectual. As diversas “formas” que a Arte assume ao longo do tempo implicam-se em razões que têm as suas raízes no pensamento, na filosofia, nos contextos sociais, nas transformações tecnológicas, na liberdade de afirmar outros futuros, outros entendimentos da realidade, na busca poética de motivações que transcendam os marcos de partida. Todos os momentos são de chegada e de partida. O “informalismo “, onde se implica a obra de Moita Macedo, surge pelos anos 50 e são, segundo Argan, “poéticas de incomunicabilidade”. Considerada ultrapassada a discussão sobre a forma e o conteúdo, que se vinha impondo desde há duas décadas, há uma procura no sentido duma liberdade e duma afirmação do artista cujo gesto, o depositar a carga que o castiga, realiza a obra que depende apenas da sua actuação e não dum conhecimento prévio e preparado. A obra existe porque ali realizada e constitui expressão da vontade e da vitalidade e da convicção do autor perante os materiais que manipula. A obra explica-se em si e por si própria. Na obra de Moita Macedo, nos primeiros anos, há uma aproximação da realidade imediata e de registo que os integra numa aparência que deseja ser de interpretação. Afirmar uma maneira de ver. A figuração com o tempo dilui-se até atingir, em muitos casos, a nitidez do gesto assumido, noutras, uma procura de sobreposições com matéria densa que, através de vários ritmos de “ataque”, resultam depósitos de energia que se deixam ler nas diversas camadas que as insuficiências sentidas revelam, até ao nó final que numa unidade formal e cromática conseguida consideram completa a obra. É natural que as obras não tenham título, porque o autor não está a registar um assunto, uma descrição, mas antes a expressão do seu temperamento e experiência acumuladas. Cada obra deseja, por uma linguagem inventada e não relacionável de “incomunicabilidade”, despertar energias na energia que oferece, no gesto que se mantém aparente e na cor que a serve. A ausência duma geometria e a total liberdade assumida sem preconceitos, são a pureza e a procura da beleza através da vontade profunda, sentida e meditada do autor. É como um alfabeto que não constrói palavras porque sempre incompleto, inquieto e renovador na sua estrutura básica. “Nem minto para que as coisas sejam belas...” A beleza assim é transparência, sinceridade e, naturalmente, neste jogo assim jogado é necessário, sem escapadelas, que o autor se entregue para que a comunicabilidade se estabeleça e a obra entre no circuito do uso, do testemunho, da parte que lhe cabe no entendimento dos homens. O tempo vem ajustando e reconhecendo a obra de Moita Macedo e a possibilidade agora duma percepção do conjunto, dá-lhe a unidade que reflecte o autor que através de tão diferentes cenários de vida teve a singular coerência duma unidade de pensamento afirmado com uma vontade determinada. Rogério Ribeiro Professor da Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa |