Maria João Fernandes
NOTAS CRÍTICAS  

A PINTURA DE MOITA MACEDO
Moita Macedo dedicou-se a uma profissão distante do horizonte das artes plásticas, mas, entre o final dos anos 60 e o início dos anos 80, durante cerca de quinze anos produziu uma obra plástica notável até hoje praticamente desconhecida. O pintor deixou-nos um interessante legado poético, testemunho de uma sensibilidade atenta aos paradoxos e maravilhas da existência intensamente vivida e sonhada. A sua poesia, reunida em duas antologias Cantares de Amigo (1983) e Poemas da Terra dos Homens Curvados (1993), mereceu um estudo de Urbano Tavares Rodrigues, que a seu respeito evoca Aragon, Neruda e a herança "dos que desde Cristo e Espártaco até Guevara, até Salvador Allende defenderam a dignidade humana e apontaram caminhos de amor ou de revolta, ou de ambos esses percursos, para se chegar a uma praia de luz onde enfim rimassem fraternidade e felicidade."

De contido mas vibrante dramatismo quando aborda os temas sociais em poemas como “Emigrante” ou “Coral Alentejano”, de um depurado lirismo próximo dos versos de Saúl Dias (outro pintor-poeta) nos seus poemas de amor, amor sobretudo à vida e à sua oculta doçura, Moita Macedo concilia, na sua poesia, como na sua pintura, dois grandes afluentes de um único rio, o social e o imaginário.

Os caminhos da criação são obscuros e imprevisíveis. Só a necessidade interior que Kandinsky definiu em conhecido livro ou “o desejo de criar uma realidade, a vontade de forma”, explicam a súbita eclosão de um talento até então aprisionado, em vocações tardias de artistas marcantes como Gauguin ou Dubuffet, que, ao descobrirem uma nova e plástica expressão do mundo, não mais deixaram de executar a grande sinfonia de uma vida que encontra na aventura estética o seu mais profundo e mais autêntico sentido.

A vida da arte é mais verdadeira do que a própria vida. Devolve-a às suas fontes primitivas, a uma essência mágica, momento cosmogónico de uma liberdade e de uma invenção originais. Tempo de abertura, de receptividade do ser ao ser do espaço, ao espaço do ser, diálogo de substâncias que alimenta os mistérios e as evidências da criação.

Arte significa a liberdade de criar uma linguagem absolutamente nova, a proposta de novos universos dentro do universo.

Desconhecemos em que instante um estranho impulso terá conduzido Moita Macedo ao seu percurso criativo, ao qual infelizmente nunca pôde dedicar-se por completo. Talvez a Índia, onde esteve nos anos 50, lhe tenha rasgado novos domínios da sua sensibilidade de artista que ainda não se reconhecera. Em Damão executou o restauro da capela de Nossa Senhora do Mar. Em 1963 integrou-se na Cooperativa Gravura e nesse contexto iniciou-se na gravação em vidro. No mesmo ano conheceu Almada Negreiros, contactando com o universo da sua exuberante e versátil criatividade, e mais tarde Artur Bual, cuja pintura fortemente gestual, embora figurativa, o terá talvez influenciado.

O seu primeiro trabalho conhecido reflecte admiração pelo cromatismo vigoroso e muito contrastado de Gauguin, caminho que abandonaria. O artista tacteava ainda os rumos da sua expressão. Entre 68 e 69 assistimos ao despontar de um universo, inesperada janela no dédalo dos caminhos possíveis, fenda no muro das aparências que vais revelando a cor a uma nova luz com a graça de uma revelação. Luz suavemente velada, nocturna, um verde de fundo submerso, lunar, em paisagens de uma melancolia doce, quase irreal.

Fantasmagorias de azul submarino, liquefeito, incêndios consumindo a distância, castanhos da terra dos homens e dos sonhos crepusculares. Figuras e cores de uma melancolia palpável, paisagens marítimas mergulhando no ocaso e dele emergindo, instantes de revelação de uma consciência desperta para os íntimos segredos e as silenciosas melodias do espaço. Troca de segredos, balbuciante, que a mão regista diligentemente. Nesta irrealidade vibra a secreta alma da realidade.

A linha desfaz-se sob o impulso e o fluxo de uma cor nocturna, caudalosa, e no entanto de uma doçura e suavidade envolventes e perturbadoras. O negro entre acordes rubro compõe um mundo de palpitantes sugestões oníricas, povoando um quotidiano sombrio resgatado por fugidias memórias, como a figura feminina de olhos fechados e postura pensativa num trabalho de 1968 parece sugerir. Anima feminina, sensitiva e vibrátil perpassando fugaz na pintura de Moita Macedo, na precisão do desenho desfeito pela espátula, no rigor da sua beleza e plástica, presença de uma sensorialidade musical a que a sua obra vai dando forma.

Maria João Fernandes
Mestre em História de Arte,
Membro da Associação Internacional de Críticos de Arte