Francisco Simões
NOTAS CRÍTICAS  

AO MOITA MACEDO, AMIGO SEM RETICÊNCIAS
"Conheci o Moita Macedo há vinte anos e logo descobri estar na presença de uma personalidade extremamente peculiar. De imediato senti que uma amizade fraterna se instalou no nosso relacionamento.
Aquele homem grande, gordo, cuja presença tinha algo que me fazia lembrar um buda, brincalhão e gracioso, possuía um coração de criança, pela sua pureza e bondade. Um coração tão forte e rico de sentimentos e limitadamente tão frágil, que um dia não aguentou o peso de todo aquele amor, de toda aquela amizade, de todo aquele entusiasmo, e parou para repousar eternamente. Foi normal, não pode haver nenhum coração que resista a tanta intensidade.
Um dia, em Maio de 1981 – só podia ser Maio – mês de Catarina, de trabalhadores e revolucionários – o Moita escreveu para o catálogo de uma exposição minha: “O mais que as pessoas fazem é falar. Falam e contam-se demais. Mas rica é a língua portuguesa no duplo sentido das palavras como expor-se (arriscar-se) ou se expor (exibir-se). Muitos se expõem mas poucos se arriscam, até na liberdade de escolher e ser amigo de alguém, sem reticências.”
Muitíssimo mais do que eu o Moita Macedo mostrou essa liberdade de escolher e afirmar ser amigo sem reticências.
Aliás, tudo no Moita era sem reticências.
A sua liberdade era a poesia – um grande poeta o Moita Macedo – sabiam?
Não escreveu livros de poemas, nem os poemas magníficos que de improviso nos ia dedicando. Nem sequer permitiu que os gravássemos.
A sua liberdade era a pintura – um grande pintor, que se dizia empregado de escritório na Siderurgia Nacional e sindicalizado.
O seu atelier era em toda a parte, no escritório da Siderurgia, nas tascas onde comia com os amigos, nas tertúlias, em casa, no quarto, na sala ou na cozinha – a sua pintura era um impulso igual aos batimentos do seu coração frágil e magnífico.
Foi na sua cozinha, um dia, que peguei num bom bocado de barro e esculpi o seu retrato. O Moita não resistiu e, a meio da sessão, a cozinha – atelier improvisado, estava repleta de todos os seus amigos vizinhos a verem o “espectáculo”. O “espoectáculo” não era obviamente o escultor ou a escultura, era ele, o modelo, as suas palavras, o seu entusiasmo, os seus poemas duitos a propósito de tudo ou até de nada. E os seus vizinhos – os escritores, o merceeiro, a porteira e o marido, o gasolineiro que fechou a bomba para vir ver, os sindicalistas que abandonaram o sindicato para verem que a arte era do povo, ali obviamente viram que o povo era ele, o Moita Macedo.
Esta era, também uma forma da sua liberdade – a liberdade da amizade e do gozo.
A liberdade da maravilhosa anarquia do Moita. Exactamente porque tudo era sem reticências.
Hoje podemos ver algumas peças da pintura do Moita Macedo, onde se expõe e arrisca. Constatamos que não existem influências nem correntes, nem regras, nem preconceitos. Só pintura, que o é sem reticências. Pintura/liberdade, pintura/amizade, Pintura/anarquia e esta pintura é, podem crer, o meu muito querido e saudoso Moita Macedo."

O teu Amigo

Francisco Simões, 1996