Fernando de Sousa
NOTAS CRÍTICAS  

MOITA MACEDO
Diz Moita Macedo, num dos seus textos, que a sua pintura se poderia designar como ‘memografia’, isto é, uma grafia da memória, afirmação que se enquadra no ‘informalismo’ como prática de pintura e que será a ponte mais continuada e expressiva do seu trabalho. Grafia com memória do passado acontecido mas que se mistura com o acto de realizar. Pintar num sentido duma expressividade quase automática, como que a deixar fluir vontades e desejos num jogo de formas e cores que a razão vai descobrindo e dando ordem.

Na obra de Moita Macedo, nos primeiros anos, há uma aproximação da realidade imediata e de registo que os integra numa aparência que deseja ser de interpretação.

Afirmar uma maneira de ver. A figuração com o tempo dilui-se até atingir, em muitos casos, a nitidez do gesto assumido, noutros, uma procura de sobreposições com matéria densa que, através de vários ritmos de ‘ataque’, resultam depósitos de energia que se deixam ler nas diversas camadas que as insuficiências sentidas revelam, até ao nó final que numa unidade formal e cromática conseguida consideram completa a obra. É natural que algumas das suas obras não tenham título, porque o autor não está a registar um assunto, uma descrição, mas antes a expressão do seu temperamento e experiência acumuladas.

Cada obra deseja, por uma linguagem inventada e não relacionável de ‘incomunicabilidade’, despertar energias na energia que oferece, no gesto que se mantém aparente e na cor que a serve. A ausência duma geometria e a total liberdade assumida sem preconceitos são a pureza e a procura da beleza através da vontade profunda, sentida e meditada do autor. É como um alfabeto que não constrói palavras porque sempre incompleto, inquieto e renovador na sua estrutura básica.

“Nem minto para que as coisas sejam belas...” A beleza assim é transparência, sinceridade e, naturalmente, neste jogo assim jogado é necessário, sem escapadelas, que o autor se entregue para que a comunicabilidade se estabeleça e a obra entre no circuito do uso, do testemunho, da parte que lhe cabe no entendimento dos homens.

Fernando de Sousa
Professor Catedrático da Universidade do Porto