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MOITA MACEDO - PINTURA E DESENHO "Apesar de pouco ter ultrapassado o meio século, a vida de José Albano Pontes Santos Moita Morais de Macedo (Benfica do Ribatejo, 17-X-1930 - Lisboa, 15-V-1983), trabalhador e animador cultural na Siderurgia Nacional, soldado na antiga Índia Portuguesa e lutador incansável pela liberdade e pela igualdade, pintor e poeta nas tertúlias lisboetas dos anos sessenta e setenta, foi apaixonadamente vivida (Não me peças remorsos / os momentos da vida / Vivi-os!), tanto no plano estritamente pessoal como no público, neste caso sempre em prol de diversas causas de carácter colectivo, tendo como meta alcançar uma sociedade mais livre, mais fraterna e menos injusta, em que o abraço entre a Arte e o Humanismo seria pilar essencial. A sua actividade pictórica está essencialmente concentrada nos últimos dez a treze anos de vida (1970-1983), embora subsistam diversos registos artísticos de épocas anteriores, uns fruto de antigas aprendizagens (gravação sobre marfim), outros reveladores das inquietações que o conduziriam à busca incessante, centrada no espírito e na mão, da forma e da matéria, conducente à libertação plena do seu «eu» criador. O pintor descreveu, logo em 1973, no início da última década de vida, que seria também o período que assistiria à sua mais intensa produção artística, o seu original processo criativo, em que o desenho «de memória», quase «automático», como queriam, afinal, as diversas poéticas de ascendente surrealista e as derivações do «informalismo» e do «gestualismo» a que habitualmente o associamos, assume um papel crucial. Definiu esse processo como memografismo, termo que, dez anos depois, em 1983, continuava a reter: ...memografismo, aquilo que teimosamente nos fica na memória. Moita Macedo deixou-nos múltiplos «registos» pictóricos, gráficos e verbais dessa original via de libertação, não apenas interior mas materializada num fluxo contínuo e interactivo entre o espírito e a mão - em que, naturalmente, teremos também de incluir os sentidos poemas que escreveu e que seriam reunidos em volume autónomo postumamente. Vários escritores e críticos escreveram ora sobre a pintura e o desenho (Eurico Gonçalves, Sílvia Chicó, Maria João Fernandes, Alice Branco) ora sobre a poesia de Moita Macedo (Urbano Tavares Rodrigues), esclarecendo vários dos seus aspectos formais e dos seus contextos de desenvolvimento. Nós próprios, num livro cujo lançamento acompanha esta exposição antológica no Museu do Trabalho Michel Giacometti, procurámos interrogar, em simultâneo, as duas expressões, a verbal e a gráfica, do seu percurso criador, indissociáveis no sujeito e no seu legado, como, aliás, o próprio pintor se encarregou de nos lembrar, tanto em dois simples mas eloquentes versos: "Pintei versos, Escrevi quadros" como num outro poema: "Se de mim Só ficar o poema Mesmo assim - - valeu a pena" ou, ainda, na frase que constitui uma eloquente profissão de fé, na apresentação que fez da sua exposição no restaurante Adega do Zé da Rosa, em Lisboa, em 1982: o desenho/pintura, a memória e futuro da minha forma de ser e estar, são o meu testemunho de acreditar na liberdade pessoal de expressão. O «poema» que ficou de Moita Macedo desdobra-se tanto pelos mundos visionados nos seus inspirados poemas como pela poética da experimentação e da liberdade realizada nas pinturas e nos inúmeros desenhos que nos legou. É certo que a sua poesia parece muito mais obviamente «interventiva» e «comprometida», para não dizer por vezes mesmo «panfletária», do que a sua pintura ou o vasto mundo do desenho, em que são relativamente raras, no conjunto global, as composições que se referem de forma directa, por exemplo, a situações ou a acontecimentos concretos vividos pelo autor antes, durante e depois da Revolução de Abril. O facto de, como pintor, Moita Macedo se ter confessado «despojado» «do desejo de tudo o que se assemelhe a uma representação do real aparente (realidade só visual)», explicará essa rarefacção da referência ao concreto, em contraste com o que vemos na escrita. Urbano Tavares Rodrigues sublinhou o facto de a poesia de Moita Macedo oferecer o aspecto de páginas de um diário, assumindo um carácter de «apontamentos, na sua rapidez, no seu inacabamento, nos seus fulgores de ironia, nas suas cáusticas condenações do egoísmo triunfante, nos seus momentos de beleza», o que não estará muito longe do que se passa com as diversas séries tanto de pinturas como de desenhos. Muitos destes são realizados a tinta da china sobre papel, mas também os há em diferentes outros materiais e técnicas, utilizando amiúde a cor, como, de resto acontece com os exemplares seleccionados para esta exposição. Esse vasto legado de desenhos constitui um verdadeiro diário do diálogo entre o espírito e a mão no seu itinerário de libertação, singulares poemas com que se foram escrevendo aquelas «formas memoriais de um mundo concreto e de emocionalismos tradicionais». Essas «formas memoriais» agrupam-se por núcleos temáticos bem definidos, comuns à pintura e ao desenho - o esplendor do corpo feminino nú, os rostos e as máscaras, as cidades, os Quixotes, as tauromaquias, as caravelas, os Cristos e as composições puramente abstractas de carácter profundamente gestual e experimental em que o autor 'Desenhou/Escreveu' de forma eventualmente mais explícita, aquilo que ele entendeu como a «libertação do gesto criador». Nesta exposição, em que se apresentam desenhos e pinturas que se estendem de 1970 a 1983, tanto de pequeno como de médio formato e algumas de maior escala, em várias técnicas e diferentes suportes, estão representados praticamente todos esses temas. Vários desses grandes núcleos temáticos têm correspondência directa em diversas poesias que escreveu, o que reforça a indissolúvel ligação entre ambos os universos da sua qualificada expressão. O primeiro de todos esses agrupamentos, pela invulgar quantidade de exemplares de todas as épocas é o que se reporta ao corpo feminino, na sua nudez eternamente inspiradora, que o pintor-poeta considerou: "Meu pão, meu conduto" no mesmo poema em que o associa aos gestos e à mão "Teu corpo sem vestes Era marca e gesto Dos meus dedos quentes." Um outro importante núcleo temático - o dos Quixotes - tem também directa correspondência textual em algumas das mais belas poesias que escreveu, quando anunciou que: "o meu sonho é um cavalo" e se identificou, no Poema a Dulcineia, com o herói cervantino, no seu combate contra os moinhos vento, perseguindo a utopia, esse alimento da esperança: "cavalgando no meu rocinante de sonho sem trela sem freio e sem arreios solto o meu pendão de papel ao vento ao sol e à chuva siga esvoaçante rumo ao fim pelos campos de ninguém." Às cidades, que têm lugar privilegiado na sua obra plástica, tanto na pintura como no desenho, em composições ora tendencialmente monocromáticas ora em quadrículas estridentes de cor, como se constata nesta exposição, dedicou todo um interessante ciclo poético, além de referências dispersas noutros poemas. Mais subtil é a relação do vasto núcleo de Cristos desenhados e pintados (em que se incluem alguns Calvários) com os poemas publicados. A cruz e o Crucificado, tão omnipresentes na sua obra plástica, tornam-se não apenas num símbolo de libertação mas também de amor incondicional, como encontramos em Amigo." Prof. Dr. Fernando António Batista Pereira (Excerto de texto adaptado do livro "Moita Macedo-Desenhos") |