Edgardo Xavier
NOTAS CRÍTICAS  

SOBRE MOITA MACEDO
"Tenho a memória cheia de registos, como se de um arquivo arcaico se tratasse. Riscos, manchas, escorridos. As figuras emergem, afundam, revelam-se e desaparecem. Regressam em carne, tela, papel, pedra, madeira ou bronze. Algumas, apenas esboçadas, são como imagens delidas neste insólito armazém de Arte. De Artes. Mal balbucio um nome e eis que, deste magma sensorial, me surge a visão das obras, das referências, dos créditos … com ou sem o autor presente.
A celeridade deste processo depende do tempo que passou, mas também da impressão causada e da duração do convívio. Há nomes que, gravados com a força do afecto, rompem as mil camadas dos que vieram depois e acendem-se logo para a vida plena de sentido. Moita Macedo é um deles. Revejo-o, meão de altura, um entre muitos, não for a o timbre da voz, o brilho febril dos olhos e o emocionado dos gestos a emprestar paixão ao que dizia. Poemas e histórias; projectos e trivialidades; os abismos em que deixava planar o seu espírito de homem bom e generoso.
Sempre sensível, pintou como viveu, em ritmos intensos e frequentemente anárquicos. As pausas aconteciam mas a serenidade era, no contexto da sua pintura, sempre paradoxal.
Às vezes “agarrava” imagens reais, prendia-as com liames de cor e limitava-as com traços enérgicos. Corpos e rostos nasciam assim, ébrios de tinta, macerados por amor ou desespero. Esgotava-se neste exercício a um tempo doloroso e lúdico, racional ou automático. Quando, finalmente, terminava, só restavam vestígios do tema e a impressão gestual a denunciar a luta, invariavelmente íntima e possessiva.
Avesso a qualquer escola, corrente ou tendência estética, pautou-se pela intuição e disse do caos e da tormenta num neo-expressionismo que tem, como obsessões óbvias, o drama e a teatralidade dos espectros que perseguia para dar corpo e voz à sua própria inquietação. Nem serenidade ne3m esperança existem na sua pintura muitas vezes sombria.
Oscilação entre a figuração e os abstraccionismo, Moita Macedo reflecte-se no vago das formas sugeridas, na opacidade dos negros puros, dos ocres e dos azuis penumbrosos, onde, vez por outra e ainda por excesso, acontece o branco, como uma luz que tanto ilumina como cega."

Sintra, Fevereiro 2001

Edgardo Xavier
Crítico de Artes Plásticas da Associação Internacional de Críticos de Arte - Portugal