Eurico Gonçalves
NOTAS CRÍTICAS  

A NOITE ERA GRITO E ERA GEMIDO
Nascido no Ribatejo, em 1930, Moita Macedo faleceu em Lisboa, em 1983. Não o conheci senão de vista, rodeado de amigos, que o admiravam pela qualidade humana da sua natureza impulsiva, fraterna, viva e comunicativa. Poeta e pintor, imagino-o, em momentos de solidão, a escrever, a desenhar e a pintar continuamente, em múltiplos e pequeninos papéis, que amontoou ao longo de uma existência atormentada. Muitos desses desenhos e pinturas permanecem ainda inéditos, enquanto muitos outros figuraram em numerosas exposições individuais e colectivas, desde 1969.

O autor dos “Poemas da Terra” dos homens sem rosto, escreveu o traço com que fere as suas telas, em tons de cinza e negro, “o grito do animal encurralado (…) amálgama de traços, cores e sentimentos”.
“Queria que os meus poemas fossem gritos / capazes de romperem alvoradas” – escreveu o poeta, que amou a terra, o mar e a gente da noite, no seu país, que evocou com saudade e desespero. “No meu país o poema diz mar / No meu país há gente a chorar” (…) “Gente da noite (…) mistura estranha de vultos oprimidos” (…) gente da noite / em noite fria / branco sujo de azul e agonia”. (…) “Quando as bocas se calaram (…) silêncios ficaram pedras”. (…) “Saudade é quando corro (…) e grito / Saudade é quando busco o infinito (…) A noite era grito e era gemido (…) teu corpo despido”. (…) “O meu caminho é rude e agreste / e sob a sombra do azul / há sombras de um cipreste”. (…) “Aqui a minha terra / onde os silêncios gritam” (…) “às vezes anoite em pleno dia”.

A matéria informar da sua pintura neo-expressionista é marcada por mil dilacerações de uma vivência exasperada. Na fronteira da figuração/abstracção, a sua obra oscila entre o paisagismo abstracto e a figuração distorcida de vultos humanos, rostos, máscaras, cabeças de Cristo, crucificações. A tinta empastada e rapada acentua o ritmo orgânico do gesto, que gera uma pintura nocturna, intensamente dramática, com tons sombrios e negros, quase cerrados, onde, por vezes, se vislumbra a luz velada de vermelhos sanguíneos, azuis pálidos e repentinos brancos.

O gesto impulsivo do pintor exalta “a beleza convulsiva da matéria”. Vermelhos sanguíneos, negros, castanhos, cinzentos, azuis frios e brancos sujos são os tons dominantes de uma paleta condizente com o temperamento arrebatado e perturbado do pintor, que articula manchas sobrepostas em pequenas superfícies, minúsculos territórios, onde se condensa toda a tragédia do mundo. Na dimensão reduzida do suporte, a execução rápida e nervosa alastra em mil pequenos papéis e telas. Tal forma acumulativa de trabalhar pressupõe ritual, que confirma a insatisfação do espírito inquieto do artista, ávido de uma experimentação constante.

A técnica mista é a que melhor se adapta a esta sua maneira exaustiva de desenhar e pintar. Sem solução aparente, a obra de Moita Macedo testemunha uma densa tensão interior. A sua arte exprime o fervor intranquilo de uma natureza emotiva, a ânsia de quem impacientemente tenta conjugar as múltiplas leituras de uma linguagem fragmentada, diversificada e, por vezes, dispersa, que recusa fechar-se em qualquer sistema ou definição categórica.

Autodidacta ou sem escola que lhe valha, o pintor-poeta sempre preferiu a ousadia de uma técnica irregular, espontânea e insubmissa e avessa a qualquer tipo de organização formal. No caos ele sabia que não era fácil permanecer, embora não tivesse encontrado outra alternativa que o satisfizesse. O que o atormentava era algo disforme, visceral e monstruoso como um corpo irremediavelmente despedaçado. A matéria árdua dessa experiência dolorosa remete-nos para a noite sem fim dos que adormecem na pedra fria e gritam de desespero, após a catástrofe sem nome. Sem se fixar em nada, a sua pintura é o trajecto dos que deixam apenas a sombra de um grito sufocante. Não h´+a alegria, nem sequer esperança, mas sim a profunfidade humana de olhar perdido na treva. Sem querer cristalizar-se, o que resta é a vertigem de um gesto repentista que irrompe em diversas direcções, na lama movediça dos caminhos.

Eurico Gonçalves, Novembro 1996