Cláudio Torres
NOTAS CRÍTICAS  

A ARTE MISTERIOSA DE ESCONDER O MUNDO
Pode parecer um repente colérico ou mesmo até um grito de emoção. A mão perdida num gesto uniforme abre por vezes um novo caminho, sugere uma outra ordem compositiva e mesmo, quantas vezes, um percurso inovador de inusitada criatividade. O repentismo ou gestualismo da escola americana ou a contida monumentalidade a preto e branco das vigorosas pinceladas de Hartung perpassam e densificam toda a obra de Moita Macedo sem no entanto a espartilharem num discurso unívoco e muito menos mimético. Esta é a sua linguagem, a maneira de ordenar os morfemas desgarrados de uma composição, a forma de cingir aos limites definitivos do enquadramento o vigor incontido e inadiável de uma ideia. Esta ideia subterrânea, nunca aprisionada na expressão fugaz de um aparente abstraccionismo, brota, alucinante e irreprimível, na sugestão nocturna de um corpo feminino, nos panejamentos do velame ou ossatura de uma barca moribunda, na respiração dolorosa de um deus esquecido, na crina desgrenhada de um qualquer digno rocinante, ou no frio horizonte de um entardecer apenas sonhado onde uma réstea sanguínea anuncia talvez o parto de um novo dia.

Cláudio Torres
Professor de História da Arte