António Valdemar
NOTAS CRÍTICAS  

SOBRE A PINTURA DE MOITA MACEDO
"Para Moita Macedo a pintura constituiu o processo de comunicação integral de uma sensibilidade sempre desperta para todos os problemas do homem e do universo.
Será, porventura, muito difícil averiguar onde principiava o poeta e onde começava o pintor. Estou certo que ambos se completavam no mesmo ímpeto vertiginoso de afirmação, de procura e descobertas contínuas e em que se manifestavam os clamores explosivos da insatisfação.
Pintor gestual, apresentava, na força da matéria e com grande poder expressionista, sucessivas paisagens com barcos. De certo que o mar simbolizava para Moita Macedo a essência dos contrários, que retém e destrói o livre movimento e traduz o dinamismo primordial anterior à formação do Cosmos.
Outro tema dominante (estive para chamar-lhe obsessivo) foi o universo da tauromaquia, a sedução e o mistério da festa brava, a vida e a morte jogadas no espaço circular da arena, ao surpreender touro e toureiro num só corpo, quando ainda não se distingue o vencedor do vencido. Dir-se-ia o encontro visceral com a génese, da Ibéria, nas suas mais profundas razões.
Nada mais embaraçoso do que encontrar definições categóricas. Recordo os versos de Cesário Verde “Se eu não morresse nunca / e eternamente buscasse e conseguisse a perfeição das coisas …”.
Assim se poderá sintetizar o percurso de Moita de Macedo. Ele próprio, talvez, escolhesse estas palavras emblemáticas para definir a sua ambição suprema.
Todavia, a morte colocou ponto final (quando menos se esperava) numa vida breve e numa obra que teria, ainda, muito mais a dizer."

António Valdemar
da Academia das Ciências de Lisboa e da Academia Nacional de Belas Artes
Dezembro 96